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Delatores brigam pela liderança dos dedos-duros

Brasília - A delação premiada virou uma bagunça e o delator  - antes um sujeito rejeitado e execrado  pela sociedade - agora recebe status de herói. Para receber o benefício do perdão ou abrandamento da pena os acusados agora disputam na porrinha que vai ganhar para dedurar primeiro. A reação de Eduardo Cunha contra a Procuradoria-Geral da República ao saber que a sua confissão foi rejeitada é um exemplo da banalização do crime e de má conduta dos envolvidos:  “Repudio com veemência o conteúdo dos depoimentos do Funaro. Trata-se de mais uma delação sem provas (...), onde o delator relata fatos que inclusive não participou e não tinha qualquer possibilidade de acesso a informações”,  escreveu o ex-deputado do presídio.

 

Veja que coisa: Cunha quer ter a primazia da delação. Acha, entre outras palavras, que o doleiro Funaro aproveitou-se dos segredos das negociatas com PMDB para “roubar” as informações que ele tinha para a PGR. Diz ainda na nota que o doleiro aventurou-se na confissão, pois contou coisas que ele não tinha cacife para saber por não ter acesso as informações que ele, Cunha, as têm para entregar aos procuradores. Pois é, Cunha ainda não percebeu que pelo andar da carruagem vai passar uma bom temporada na cadeia.

 

Os procuradores rejeitam a assinar delações com ele porque entendem que o Cunha trabalhou em parceria com Funaro, portanto, as informações são semelhantes para que ambos sejam beneficiados. Eu, por exemplo, discordo: o ex-presidente da Câmara sabe muita coisa sobre o trio Temer, Moreira e Padilha porque foi desse grupo a iniciativa do impeachment. Além disso, Cunha só acionou o regimento da Casa para expurgar a Dilma depois das garantias de Temer de que nada iria acontecer com ele caso o amigo chegasse à presidência.

 

Os procuradores não podem esnobar. Eu tendo a concordar com Cunha quando diz que sabe mais do que o Funaro. Ora, o ex-presidente da Câmara foi da copa e cozinha do presidente Temer. Estava entre os principais arrecadadores de grana para o partido e por muitos anos deu as cartas dentro do PMDB. Ao ser esnobado pelos procuradores, Cunha disparou misseis de dentro do presídio contra a PGR: “As delações premiadas chegaram ao ponto máximo da desmoralização. Basta concordar com qualquer coisa para obter infinitos benefícios”.

 

Cunha está igualzinho aqueles presos que chegam para uma temporada curta na cadeia e lá dentro percebe que a permanência é infinita. Na primeira sentença aplicada pelo juiz Sérgio Moro, ele viu desaparecer por completo a solidariedade dos seus amigos de partido e do Palácio do Planalto. E, sozinho, começou a detalhar a sua delação em noites de insônias no beliche de cimento cru do presídio. Mas enquanto selecionava o que iria dizer, Funaro foi mais esperto e adiantou os segredos para o ex-procurador-geral, Rodrigo Janot. Pronto, a delação do Cunha foi para o brejo. Baseado na confissão do doleiro, Funaro acusou Temer, Moreira, Jucá e Padilha da criação de uma organização criminosa.

 

Cunha, enfurecido, já anunciou que vai à Justiça para anular a delação de Funaro. Ele não se conforma em ver que trechos da sua colaboração, que preparava com o maior carinho, foram enxertados no acordo do Funaro. Está configurado aí, no mínimo, um crime de direitos de autorais. Se ganhar a causa, Cunha quer de volta o seu texto, pois se considera lesado na sua história.

 

Na verdade, não adianta Cunha espernear. A ideia dos procuradores é manter o depoimento dele em banho-maria até ele decidir contar tudo que sabe. Por enquanto, a tática é desprezar a confissão para minimizar a sua delação. No desespero é provável que saia da sua caixa-preta revelações que farão, mais uma vez, explodir a república já tão deteriorada.

 

Uma coisa é certa até agora: a Lava Jato serve para revelar o caráter infectocontagioso dessa gente que usava ternos de grife para esconder o servilismo e a subserviência. Até agora não vi um só desses sujeitos que não abaixassem as calçada diante do juiz Sérgio Moro.

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