A demonização da arte

Igualmente aos livros, que se constituem em nossa maior herança histórica, cultural e literária, a arte, em todos os tempos, é o maior testemunho do nosso passado e do modo de vida da sociedade. Este início do século 21 é um grande vácuo. A arte perdeu o fôlego e segue sem um rumo definido. Parece que se esgotaram as ideias inusitadas. O que há de novo é o velho sabor do escândalo. A busca do impacto!

Vivemos um período de transição, onde metade da população vive ainda em pleno século 20, num nível primário de cultura, leitura e conhecimento. Com o agravante de que cerca de um terço desse contingente carrega uma dose extrema de fundamentalismo religioso, intolerante e sectário. Mais ainda, com a difusão de uma cultura apocalíptica, na qual qualquer fenômeno é atribuído ao fim dos tempos.

Nesse mesmo viés está uma sociedade que perdeu a noção de vida privada, que abre sua casa e expõe a família e tenta celebrizar-se através de polêmicas nas redes sociais. Da mesma forma há uma demanda de avaros pelas licenciosidades alheias. Por alguns minutos de sucesso chega-se ao ridículo ovacionado por milhares de curtidas e compartilhamentos.

É nesse contexto que a arte busca um caminho. Afinal, a crítica continua afinada com a novidade e não com o conservadorismo. E é o criador, não a obra que mais importa nestes dezessete anos do terceiro milênio. Fazer barulho se torna mais interessante que o destino estético que a obra propõe. Atingir o objetivo é escandalizar. Ideia que fez de Duchamp um ícone mundial, depois de consagrar seu “mictório” como uma “fonte”, assinada com o pseudônimo de R. Mutt. O que é a arte desde então? Tudo! Qualquer coisa pode ser uma obra de arte. Mesmo que esta não seja tocada sequer por um artista. É a consagração do efêmero, de uma obra de arte que acaba no final da exposição. E arte que é varrida e jogada na lixeira. E materialização e desmaterialização de uma ideia. Esta é a arte conceitual.

E para quem não está no norte deste tema, a performance do MAM não foi nenhuma novidade. Expor a nudez viva seja com intenção estética ou para escandalizar é uma ideia antiga e mofada. E, não me espanta que a presença da criança numa exposição adulta, tivesse o objetivo funesto que alcançou, semelhantemente, ao que aconteceu com o Queermuseu Santander, em se tratando de um dos temas mais delicados de nossa era. No entanto, demonizar a arte não é o caminho para nos tornarmos referência nem vanguarda.

 

Benedito Ramos é escritor.

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