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SEM VOCAÇÃO PARA JABUTI

Algumas coisas marcam nossa vida, remetendo-nos à época da infância. Recordo quando, desde cedo, meus pais me ensinaram a sorrir sempre, pedir a bênção, ao acordar e, principalmente, cumprimentar as pessoas, respeitá-las em seus direitos, atendendo-as bem, quando necessário.

Os tempos passaram mas, frequentemente, sinto imensa saudade de meus primeiros tempos, quando tudo era brincadeira e, com uma vara de bambu, tentava alcançar o céu, ao passear de pedalinho na Lagoa Mundaú, sem preocupação com nada, apesar de sentir medo dos mortos e do escuro. São lembranças de uma época, onde, por horas seguidas, conversava com o meu Vovô Chiquinho, sentado no alpendre do casarão da fazenda Angicos, no sertão de Caicó, ele me contando histórias, as quais o tempo me ensinou a interpretar como verdadeiras lições de vida.

Recordo de certo dia quando, apontando para o “terreiro” onde estavam um cachorro, um cavalo e um Jabuti, ele falou: “querido, se você isolar estes três animais, sem lhes fornecer alimento, os dois primeiros, em pouco tempo, começarão a fazer barulho. O terceiro, contudo, permanecerá calado e terminará morrendo de fome. Na vida, meu neto, jamais seja como o jabuti. De forma cordata, sempre expresse seus direitos, para ser ouvido. ”

Dias atrás, incentivado pela campanha “novembro azul”, resolvi realizar checkup, indispensável à manutenção da saúde. Diversos exames foram solicitados, dentre eles uma ressonância magnética da próstata.  Agendado o horário em conceituada Clínica, localizada na Ponta Verde, submeti-me aos preparativos, objetivando o esvaziamento do intestino. Na véspera, ingestão de dois comprimidos, e, no dia, um laxante, além de alimentação mínima e, quatro horas antes do exame, agendado para o meio da tarde, regime total.

Aquele foi um dia de espreita, pois, deveria estar sempre próximo a um sanitário. Dez minutos antes do horário, cheguei ao local onde realizaria a ressonância. Para minha surpresa, a funcionária informou a remarcação da mesma, devido constantes quedas no potencial energético do prédio, desde meados da manhã.

Bem baixinho, em seu ouvido, falei não ser justo, pois defecara por quase quarenta e oito horas seguidas e não merecera um único telefonema, informando da ocorrência, aguardando minha chegada, para avisar.

A vida é assim! Espera-se que os dirigentes da conceituada Clínica desconheçam o ocorrido. Eles são reféns de pessoas indiferentes a seus deveres profissionais, sem valorizarem sequer seus empregos pois, se pacientes, como eu, deliberarem não mais ali comparecer eles correm o risco de perder seus postos de trabalho. 

Venho contando esta história, sempre que posso, até, porque, não tenho vocação para Jabuti. 

 

Alberto Rostand Landerley é membro da Academia Alagoana de Letras.

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