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No início de 2017, em uma das mais requintadas capitais da Europa, uma rica dama hospedou-se com o filho - ainda criança - e um senhor, definido como "amigo da família", em um luxuoso hotel.

Segundo consta, esta vetusta senhora atravessou toda a noite ingerindo bebidas alcoólicas - foi esta a conclusão dos funcionários do hotel, ao vê-la cambaleando pela portaria às 10:30 da manhã seguinte.

Preocupado com a segurança da criança que a acompanhava, o gerente do estabelecimento decidiu chamar a polícia.  Tão logo chegaram, os agentes da lei foram exaustivamente desacatados após terem afirmado, à vista do bafo da distinta senhora, ainda trôpega, e das diversas taças de vinho vazias sobre a mesa, estar ela embriagada.

Chamada às falas em uma delegacia, ela confessou seu estado lamentável - fruto do seu inconformismo diante da notícia de que seu ex-parceiro engravidara sua melhor amiga. Disse ter ingerido nada menos que três garrafas de vinho, na companhia do amigo com o qual se hospedara.

Em função desta conduta deplorável, que expôs a risco uma inocente criança, esta rica senhora viu-se condenada por um juiz ao pagamento de uma multa em torno de R$ 2 mil. Inconformada, decidiu recorrer.

Diante de um tribunal, sustentou ter sido forçada a confessar uma embriaguez que jamais existira - afinal, não havia ingerido três garrafas de vinho, mas apenas duas taças. Esclareceu que seu andar trôpego, naquela ocasião, devia-se a um problema de contração muscular nos pés que, volta e meia, faz com que seu passo seja irregular.

Aclarou, ainda, que sua desorientação, com toda a certeza, era fruto da combinação daquelas duas taças de vinho com medicamentos antibióticos que havia ingerido. Finalmente, reforçou que seu forte bafo, digo, hálito intenso, devia-se apenas às duas taças de vinho - que a conduziram suavemente para a cama às 11 horas da noite. Seria impossível, assim, que tivesse sido surpreendida embriagada às 10:30 da manhã seguinte no saguão do hotel.

Diante de tão convincentes esclarecimentos, esta impoluta senhora foi absolvida das acusações que lhe foram imputadas - o tribunal deu-lhe razão e cancelou a pena de multa imposta.

Convicto de que o nível de uma civilização pode ser medido pelo que seus juízes decidem, fico a pensar sobre a quantas anda o da nossa.


Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

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