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Conversa com Jânio Quadros

Na intimidade, Jânio Quadros não suportava conversar sobre a renúncia, assunto explosivo se provocado em público ou em ambiente com muitas pessoas. Um dia, aos próprios amigos, que insistiam em fazê-lo confessar algo mais do que a explicação que dava, respondeu com surpreendente calma:

- “A verdade sobre a renúncia vocês já sabem. Se quiserem ingressar na ficção, conversem com o Vladimir Toledo Piza, que tem mais de dezoito versões. Escolham uma delas.”

 

Nelson - Orlando Villas Boas conta que lhe conheceu com 13 anos. O Senhor era um menino magrinho que foi na fazenda deles com seu pai, que era médico.

Jânio Quadros - É provável. Minha infância está tão distante que não me recordo nem quero recordar. Vivemos neste mundo acostumando-nos às suas amarguras, e minha infância me parece tão irreal que às vezes me pergunto se não foi de outro.

 

O senhor é de Mato Grosso?

Nasci em Campo Grande.

 

Criado em fazenda?

Nada, nasci na rua principal de Campo Grande. É verdade que quando nasci só havia essa rua lá, mas já era a mais importante.

 

Quer dizer que o senhor é do novo estado de Campo Grande? Tiraram-lhe até o estado.

Não, deram-me um estado, e Campo Grande vai virar até capital.

 

O nome natural desse estado não seria Mato Grosso do Sul?

Fico com a impressão de que é esse o pensamento de todo mato-grossense do sul. Teria sido melhor até para efeitos históricos. Acredito que se repare esse equívoco porque o nome de "Campo Grande" não agradou a ninguém.

 

O senhor é filho único?

Tive uma irmã (Dirce Maria) que faleceu de uma moléstia rapidíssima e irreparável na época. Eu era estudante de Direito em São Paulo quando ela morreu.

 

Que tipo de educação vocês tiveram?

Logo depois que nasci meus pais seguiram para Curitiba. Meu pai era um pouco de tudo: farmacêutico diplomado, engenheiro agrónomo diplomado, médico diplomado e estava estudando Direito.

 

Era antes de tudo um estudante.

Colecionava diplomas, mas não colecionava fortunas, de maneira que vivia errante do Paraná para o Mato Grosso e de volta para o Paraná. Ele era muito vinculado ao velho PRP. Aliás, a ambos os PRD: Partido Republicano Paulista e Partido Republicano Paranaense. Quando estourou a Revolução de 30 decidiu exilar-se em São Paulo, onde fiz os Últimos anos do ginásio.

 

Como era o nome dele?

Gabriel Quadros, um homem excepcional e extraordinário. É quase forçoso um filho prestar esse depoimento do pai, mas não estou fazendo uma homenagem, pois, ele tinha qualidades raras. Era um lutador. Nunca desistiu ou desanimou, sem embargo das tempestades todas. Sempre lhe faltou a sorte. Costumava brincar dizendo que no dia em que fizesse uma fábrica de chapéus todo mundo começaria a nascer sem cabeça.

 

Em que ano o senhor nasceu?

(ri) Essa é uma pergunta que você só faz porque sou homem. Nasci em 1917 e já completei 60. A Eloá diz que cheguei àquela idade em que se perde o nome. Se eu sair nos jornais será assim: "Atropelado o sexagenário..." Lá embaixo é que o jornalista recorda de colocar o nome da vítima.

 

No colégio o senhor já era um líder?

Talvez eu o fosse, não pelas minhas virtudes mas pelos meus defeitos. Terminado o ginásio entrei para a Faculdade de Direito. Na pobreza da família comecei a lecionar para custear minha vida.

 

Que matérias o senhor lecionava?

Português e ocasionalmente Geografia. Lecionava à noite na Lapa, no Tatuapé, em vários colégios de vários bairros, até conseguir uma posição melhor no magistério, quando, já formado, comecei a dar aulas no Dante Alighieri. O Dante era um dos grandes educandários de São Paulo, remunerava bem, e exerceu uma influência muito grande sobre mim. Em primeiro lugar, me permitiu casar.

 

Há quanto tempo o senhor namorava D. Eloá?

Conheci Eloá no Quinto Ano de Direito e um ano depois de formados já estávamos casados. Saí da Faculdade com 22 anos e só não saí antes porque havia limite de idade para prestar o vestibular. Como eu não tinha idade suficiente fiz um ano de Curso Pré-Jurídico na própria faculdade Nosso casamento foi felicíssimo, (ri) Digo a Eloá que sou um marido tão bom, mas tão bom, que tudo que eu desejaria era ter nascido mulher para casar comigo mesma (risos) Em segundo lugar, o Dante me influenciou porque a uma certa altura houve uma eleição para vereadores e aquela meninada do colégio, meninada de classe média superior quase elitária - que não votava porque não tinha 18 anos - saiu à rua pregando cartazes, carregando escadas, latas, fazendo toda minha campanha e me elegi comodamente pelo Partido Democrata Cristão. Entrei em segundo lugar na legenda.

 

Como é que nasceu essa candidatura?

Sugestões dos estudantes.

 

Notaram alguma capacidade de liderança nas suas aulas?

O que sei é que gostavam de mim a despeito da minha extrema severidade. Fui um professor muito exigente, basta contar que eu reprovava como ninguém. Em primeira época e em segunda época. Era também um professor muito austero, não permitindo o uso do batom nas aulas nem deixando ninguém fumar.

 

Sua mãe era uma mulher muito rígida?

Não, é que eu entendia que estudar no Brasil era - e em larga medida ainda é - um privilégio. Ter pais capazes de custear um colégio caro num país de analfabetos e marginalizados faz do estudante um privilegiado. Como o estudante aproveita esse privilégio? Estudando, dando conta

 

Era uma atitude consciente ou algo decorrente do seu temperamento?

Nunca fui muito severo comigo mesmo nem cresci num ambiente muito severo. O que me parecia é que os estudantes precisavam cumprir o dever. Esse dever era raro, excepcional, oneroso para os pais e que no futuro lhes daria frutos compensadores.

 

O senhor era um professor de classe média empolgando meninos de classe média alta.

Quando eu lecionava na Lapa, por exemplo, era muito mais tolerante Lecionava à noite para rapazes que haviam trabalhado durante o dia e chegavam exauridos e mal alimentados para receber aulas. De quando em quando surpreendia um deles cochilando, com a cabeça caída sobre o peito. A paciência ali era outra, não seria a mesma com o estudante profissional e privilegiado.

 

Era porque o senhor também tinha passado por essas dificuldades?

Me recordo bem das terríveis dificuldades com as quais meu pai pagou o internato do Ginásio Paranaense, e depois o Arquidiocesano de São Joaquim de Lorena aqui em São Paulo, colégios muito caros.

 

O internato influenciou muito a sua personalidade?

Cá em São Paulo comecei externo mas fiz tantas e tão boas que passei a semi-interno. Também não servi ao semi-internato então lá fui para o internato. E já vinha com uma folha corrida respeitável do Paraná. Só o regime de internato é que me pôs nos trilhos, de alguma forma. Como moleque, estudando no Grupo Escolar Conselheiro Zacarias, em Curitiba, tive mais de uma régua de professora quebrada na minha cabeça.

 

Conte uma dessas tantas e boas.

Eu gostava muito de mascar mata-borrão e atirar bolotas no pescoço da professora com um elástico, (risos) Sempre quando ela estava de costas. Ou então fazia pequenos montes de lama bem à frente do grupo ou das casas dos homens que não me agradavam, e acendia uma grande bomba debaixo. Imagine como ficava o pórtico das casas!

 

Era o primeiro da classe?

Vou contar a você o que a experiência talvez já tenha lhe contado: todos os primeiros alunos que encontrei resvalaram para a mediocridade. Gastaram a pilha cedo e perderam velocidade.

 

Parece que sua vocação mesmo era ser professor, pois exercia o magistério com um grande carinho.

Eu gostava de lecionar. Não sei se foi Dionísio, tirano de Siracusa, que disse certa vez que não podendo ser ditador desejaria ser professor, pela influência que exercia na formação do caráter dos homens.

 

Dita pelo senhor essa frase é perigosíssima.

Eu sei. De qualquer maneira. alguns de meus professores marcaram minha vida de tal maneira que quando era Presidente da República fui a Curitiba inscrever na Ordem do Mérito a professora que de quando em quando me corrigia com a régua. Chamava-se Maria Estrela e fui oficialmente ao Paraná, como Presidente, conceder-lhe a Ordem do Mérito. Cá em São Paulo apanhei um irmão Marista que atendia pelo nome carinhoso de Feijoada e lhe concedi o Cruzeiro do Sul mais ou menos na época em que condecorei Guevara. Esse homem era francês.

 

Então era Irmão Cassoulet.

Pouca gente se lembra da condecoração desse irmão.

 

Já a outra marcou demais?

Todos se lembram e muitos me cobram a condecoração concedida a Guevara.

 

Existiam forças econômicas por trás de Lacerda?

Não sei. Vivi em Brasília inteiramente alheado de quaisquer maquinações. Começava a trabalhar às 5:30 ou às 6:00. Quando saía do Palácio da Alvorada cruzava com os trabalhadores braçais, sobretudo de construção civil, e ainda era noite. E quando saía do Palácio dos Despachos era noite já fechada. Trabalhava de limpar a mesa, com despachos do próprio punho. Nenhum deles foi corrigido até hoje. Me recordo de ter despachado inúmeros processos dos governos do Presidente Vargas (um grande presidente) e do Presidente Juscelino.

 

É verdade que o senhor pretendia interferir nas Guianas?

Não estava pensando em chamar a atenção do mundo para o Brasil, pensava era no Brasil mesmo. Aquela época as Guianas eram apenas três colônias quase ultrajantes para a civilização latinoamericana pois colocadas lá em cima nas bordas de nossas fronteiras, numa área de grande Interesse estratégico e econômico. As Guianas estão muito próximas do petróleo. Abandonadas pelas metrópoles, que apenas as exploravam, mostravam se sem destino. A Guiana Francesa iria produzir mais uma republiqueta. A Guiana Holandesa iria produzir uma segunda republiqueta. A Guiana Inglesa, então, estava nas mãos de um líder de extração Indiana que não inspirava confiança. No seu ódio aos Ingleses cometia excessos que no meu entender poderiam tornar-se perigosos. O que me passou pela cabeça foi negociar com as respectivas metrópoles as três Guianas para acabar por incorpora-las. Plácido de Castro fez mais ou menos o mesmo com o território do Acre que hoje é estado.

 

E JK?

Eu discordava muito de Juscelino, tendo em vista o processo pelo qual governava, pois para permanecer em Brasília fez concessões de toda espécie. Não sou capaz dessas coisas, não chego a essas concessões. Em outras palavras: não devo ser muito bom politico porque não consigo vergar. Prefiro estalar e quebrar a vergar.

 

Questão de estilo?

Discordei também da velocidade que imprimiu as obras de Brasília e do gravame que impôs ao povo por causa dessas obras. Eu teria tocado Brasília em outro ritmo. Quando andei pela Austrália fui visitar Camberra. Se não me engano o Príncipe George, que depois seria George VI, inaugurou Camberra em 1922. Visitei essa cidade em 1962. Quarenta anos depois boa parte dos Ministérios ainda era constituída de casas de madeira. O governo australiano projetara Canberra como obra de várias gerações e vários governos.

 

Falamos pouco de seu tempo de governador. O senhor foi eleito em 54, com apenas 37 anos de idade. O que é que os líderes políticos antigos pensavam daquele menino?

Em primeiro lugar, naquela época eu não era mais um menino. Em segundo lugar, os líderes políticos não estavam tão velhinhos como você pretende descrevê-los. Tinham que ser realistas: eu era uma expressão popular que não era subversiva. Em terceiro lugar, a maioria deles desejava um governo sério e justo e encontrava isso no meu modo de governar.

O que é que o governo pode fazer? Não é nenhum mágico. Começaram atirando dois ou três ovos para o ar e conseguiram fazer malabarismos. Agora estão atirando uma dúzia de ovos para o ar e o espetáculo continua. Mas que vai acabar em omelete, isso vai! (risos) Não há nenhuma dúvida. E como sou o responsável por tudo que aconteceu nesse país desde que Pedro Álvares Cabral aportou em Porto Seguro vão acabar vindo me buscar. Me confinam de novo, me exilam, me prendem, confiscam meus bens. Quem sabe? Como não quero essa brincadeira, nem a quero para meus vizinhos, nem para um operário de Vila Maria, estou profundamente inquieto. Inquieto para servir mas sem nenhuma pretensão. Como disse o Zé Aparecido: minha biografia já está escrita. Não adianta muitos quererem conspurcá-la. Podem voltar-se contra mim pela televisão, pelo rádio ou peio poder económico, não me importa. Tudo isso passa. O que não vão passar são os ideais que me inspiraram. Estão documentados inclusive na vida de muitos dos supostos homens da Revolução, gigantes com pés de barro.

 

No Governo de Juscelino Kubitscheck (1956-1961), os escândalos ocorreram em função da construção de Brasília, a nova Capital Federal. As rendas fáceis dos empresários, cresceram porque as obras de Brasília eram dispensadas de licitações.

A certa altura, como faltassem recursos para o financiamento das obras da Capital, o presidente JK planejou lançar mão dos fundos da Previdência Social sob os protestos do PTB, donatário da área. Entretanto, as obras contra a seca, agenciadas pelo PSD, converteram-se em verdadeiro maná”.

Em 1958, a fim de eleger candidatos favorecidos pelas chamadas folhas de funcionários fantasmas, chegou a faltar dinheiro em agências do Banco do Brasil, como a da Paraíba. Foi assim, segundo ele, que Jânio Quadros se elegeu presidente da República: denunciando a corrupção e ameaçando mostrá-la ao antecessor, JK, no ato da posse. JK reagiu ameaçando esbofetear Jânio. Com isso, a bomba de Jânio Quadros não explodiu durante a posse, mas à noite, em discurso pelo programa radiofônico A Voz do Brasil, com JK já fora do País.

Precisamos levar o governo Jânio Quadros a sério, apesar de tudo. O que está nos livros de história é que ele proibiu brigas de galo, lança perfume, corridas de cavalo durante a semana. Mas o que ninguém lembra é que Jânio Quadros implementou uma dura lei contra o contrabando, além de ter criado uma nova política externa para o Brasil, que dura até hoje.

Jânio Quadros - simbolizado pela vassoura - levou adiante duras investigações de corrupção no Congresso Nacional. Os parlamentares, que apareciam em quase todos os processos de desvios de verba, principalmente no que se refere à polêmica máfia das construtoras durante as obras de criação de Brasília, foram desmoralizados publicamente, o Legislativo entrou em crise. Deixa também um rastreamento dos resultados das Comissões de Sindicância instauradas pelo governo Jânio Quadros — as recomendações, e as últimas pistas de cada relatório. Ainda aguardam que, um dia, os pesquisadores vão atrás.

Finalizando: O desprezo de Jânio Quadros pelo Congresso — "um clube de ociosos" — era tão grande que chegou a indagar a seu perplexo Chanceler:

"Ministro, V. Exa. pegaria em armas para defender este Congresso que aí está?" Jânio: "Encontrei a Petrobrás de joelhos, ou de rastros, sobre a barriga, pedindo um bilhão de cruzeiros ao Banco do Brasil. Quebrada, falida.

 

Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor.

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