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Lições dos jovens norte-americanos

Parkland, Flórida: mais uma chacina em uma escola norte-americana. Foi o 18º tiroteio em área pública nos Estados Unidos só neste ano. Desta vez, todas as 17 vítimas mortas haviam nascido depois que tiros foram disparados em Columbine, no Estado de Colorado, em abril de 1999 (14 estudantes, inclusive os dois jovens atiradores, e um professor, mortos). Seria bom que os colégios, mundo afora, recomendassem a essa rapaziada vidrada nesses insanos games de violência que assistisse ao excelente documentário que Michael Moore fez à época.

Apenas para as candidaturas de Donald Trump e Hillary Clinton à Casa Branca o lobby da poderosa indústria das armas doou cerca de US$ 31 milhões. Hoje, há mais armas nos lares norte-americanos do que pessoas naquele país. Portanto, mais de uma arma por habitante. Detalhe: um fuzil AR-15 pode ser facilmente adquirido por algo em torno de US$ 500!

Alega-se que a maior dificuldade no controle de venda de armas residiria na Segunda Emenda à Constituição, de 1791, que, numa leitura apressada, permitiria a qualquer cidadão portar armas em defesa própria. É difícil imaginar uma ação de autodefesa por alguém que tenha meia dúzia de fuzis em casa ou no porta-malas do carro. Na verdade, a posse de armas por qualquer cidadão, de acordo com o texto constitucional, está condicionada à formação de uma “milícia bem regulada”, destinada a assegurar o funcionamento de um “Estado livre”. Isso chega a soar ridículo hoje em dia, quando sabemos que os EUA são a maior potência militar do planeta, capaz de neutralizar qualquer ameaça bélica a sua soberania, e que qualquer emergência comunicada pelo número 911 é respondida, em média, em cerca de cinco minutos! A Segunda Emenda é fruto da experiência de insegurança vivida, frente ao exército britânico, pelos Minutemen, os bravos guerrilheiros que, em Massachusetts, mantinham armas clandestinas em casa para uso em escaramuças contra a autoridade real. Além disso, havia receios de uma guerra civil, uma radicalização da Revolução Americana, depois da eclosão da Revolução Francesa. Ainda era vívida na memória das autoridades, dos banqueiros, dos grandes comerciantes e latifundiários, a revolta de 1786, quando veteranos de guerra e camponeses depauperados, liderados por um herói da Independência, o capitão Daniel Shays, impediram a atuação de juízes que lhes cobravam impostos elevados e dívidas vencidas. Mas tudo isso é história. O que se reivindica é a sensibilidade da Suprema Corte para atualizar a interpretação da Constituição de forma a impedir, drasticamente, a perpetuação dessas chacinas.

Os estudantes estão se mobilizando para uma grande marcha sobre Washington, programada para o dia 24 de março. Esperam juntar mais de 1 milhão de manifestantes.

Quem sabe possam até servir de motivação para que os jovens brasileiros saiam da pasmaceira e retomem as jornadas de 2013, em prol de um Brasil passado a limpo, e que afastem de vez fantasmas que preconizam exatamente armar a população para “pacificar” o país.

Sandra Starling foi deputada federal por Minas Gerais.
Artigo publicado originalmente no jornal
O Tempo.

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