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O acendedor de lampiões

Tempos atrás, Jorge de Lima – um diligente alagoano –, em momento de profunda inspiração, encantou o País ao escrever: “Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem, infatigavelmente, parodiar o sol e associar-se à lua, quando a sombra da noite enegrece o poente!”.

Não sabia, o então aplaudido poeta, que, após o sobrado onde residia bem defronte à então bucólica Praça Sinimbu, seria incorporado ao patrimônio da Academia Alagoana de Letras, instituição cultural à qual pertence, por grandes méritos, imortal que o é, passando, inclusive, a sediar a mais antiga casa da cultura no Estado onde nasceu.

Em seu poema sempre atual, nem de longe Jorge imaginou seu duplo lar, em noite sem a lua nem os lampiões por ele cantados, sendo cruelmente apunhalado no coração por bandidos que, durante a noite, o invadiram praticando arrombamento em seus portões metálicos e usurpando toda a fiação, cabos elétricos, disjuntores, tomadas, interruptores e luminárias, além de outros itens de seu patrimônio.

É uma pena, mas “os acendedores de lampião” de Jorge de Lima não estavam ali para nos ajudar. Bons foram aqueles tempos, quando se podia dizer: “um, dois, três lampiões, acende e continua, outros mais a acender, imperturbavelmente, à medida em que a noite aos poucos se acentua, e a palidez da lua apenas se pressente”.

Os bandidos levaram tudo, deixando a Casa Jorge de Lima às escuras por muito tempo. Magoaram frontalmente, não somente os atuais membros da instituição, como, com certeza, reviraram no túmulo todos quantos por ali passaram, acostumados a conviver com uma academia pujante, sempre no epicentro do saber, da cultura e da inteligência do Estado, e, nunca, das páginas policiais.

Os tempos mudaram, é bem verdade. A cultura do Brasil, contudo, continua uma síntese da influência de várias raças e etnias, embora, nos dias atuais, tudo esteja pior. Os larápios roubam fios e cabos elétricos para, no dia seguinte, negociar o cobre a dezessete reais o quilo, em uma banca da Praça do Pirulito, sem serem importunados ou questionados sobre a origem daqueles produtos.

Os ladrões de fiação se espelham em quem, quando tem oportunidade, cobra cinquenta centavos por cada cópia pessoal tirada nas máquinas de fotocópia do trabalho ou surrupiam cinco reais, levando para casa a caneta da empresa, sem falar nos trilhões de reais desaparecidas dos cofres brasileiros nos últimos tempos.

A Academia Alagoana de Letras, contudo, é grande e, assim sendo, seus sócios efetivos, de braços dados com a sociedade que tanto a tem ajudado, encontrará forças para continuar mantendo acesos os lampiões emprestadores de luz à cultura, à inteligência e ao saber, na Terra dos Marechais, às vésperas de seu centenário, quando continuará brilhando!!!

Alberto Rostand Lanverly é presidente da Academia Alagoana de Letras.

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